A caçada ao “KILO Vermelho”; submarino russo continua desaparecido do monitoramento da OTAN no Mediterrâneo

Um submarino classe Kilo navegando em algum lugar do mundo. Imagem ilustrativa com foto The U.S. National Archives. Arte redação OD.

Desde meados do dia 12 de dezembro de 2020 a movimentação de dois submarinos da classe Kilo é efetuada por forças navais da OTAN no Mar do Norte, Canal da Mancha, Costa Atlântica da França, Espanha e Portugal, e agora no Mar Mediterrâneo oriental na região que abrange a costa de Israel, ilha de Chipre e Síria.

Um deles já é confirmado como sendo o Rostov-on-Don B-237, que entrou no Mediterrâneo através do Estreito de Gibraltar, depois que operou perto das ilhas britânicas e nas proximidades de bases submarinas britânicas. O submarino russo foi escoltado por um navio auxiliar russo.

A frota britânica efetuou a vigilância do submarino até que ele entrasse no Mediterrâneo, e de lá o comando da vigilância foi transferido para a Sexta Frota dos Estados Unidos, com base em Napoli. Há poucos dias o submarino desapareceu das telas de comando e controle dos americanos e, desde então, seu paradeiro é desconhecido.

De acordo com informações coletadas por amigos que praticam o monitoramento do tráfego aéreo e marítimo por meio de sites e aplicativos específicos, a movimentação de meios aéreos e navais na região tem sido intensa e com padrões totalmente alheios aos exercícios militares efetuados no escopo da “mission Clemenceau 21” da Marine Nationale (Marinha Francesa) que efetuou treinamentos com navios de marinhas integrantes da OTAN e com o “Defender Europe” que está em curso na região que abrage a Romênia, Bulgária e parte da Grécia, e que eventualmente incluirá missões navais no Mediterrâneo e Mar Negro, mas ainda sem confirmação oficial da OTAN.

Vários dias antes da operação americana para localizar o submarino russo, houve relatos na Internet sobre uma patrulha conjunta das marinhas dos Estados Unidos e de Israel no Mediterrâneo oriental. A patrulha não estava dentro de um exercício pré-planejado. A combinação de eventos resultou em especulações de que a patrulha americano-israelense também estava ligada à perseguição do submarino russo.

Por coincidência começou no dia 13 de março um exercício da Marine Nationale no Mediterrâneo, ao largo da Ilha de Creta, o Exercício “Rhéa”, que a princípio tem como objetivo a preparação de forças de superfície contra ameaças terroristas contra a navegação civil, mas que em sua estrutura conta com a presença de fragatas da classe Fremm, que possuem capacidade de luta antisubmarina, e estas são apoiadas por aeronaves de patrulha marítima Breguet Atlantique da Marine Nationale que são especializadas justamente na atividade ASW (Anti submarine warfare) e caças Rafale M.

A Marinha dos EUA até empregou apoio de forças da OTAN, localizadas perto da Síria e da base de inteligência britânica em Chipre, para procurar o submarino russo, mas até agora sem sucesso.

Aparentemente, o submarino russo tem capacidades e  características especiais desconhecidas e suas missões operacionais na bacia oriental do Mediterrâneo geram preocupação entre os oficiais de inteligência da Marinha dos EUA, especialmente em um momento em que um grupo de ataque americano está presente na área.

Desde a Guerra Fria, os americanos têm monitorado de perto e de forma consistente as atividades dos submarinos russos em todo o mundo. Nesse caso, parece que a preocupação americana em não encontrar o submarino russo e a atividade operacional em larga escala para localizá-lo são incomuns e surpreendentes.

A cronologia de alguns fatos interessantes que podem possuir ligação

De acordo com cruzamentos de informações de fontes abertas da Europa e principalmente do canal Área Militar do Brasil, conseguimos mais detalhes de fatos que acontecem desde meados de dezeembro que mostram o empenho da OTAN em rastrear e monitorar as atividades dos submarinos russos que operam no Mar Mediterrâneo e Atlântico Norte na costa continental européia.

A cronologia de fatos (novos fatos poderão ser acrecentados posteriormente no decorrer dos acontecimentos):

– No dia 12 de dezembro um submarino Similar (não sabemos se é o mesmo) entrou no Mar Mediterrâneo “escoltado” pelo rebocador “CAPITAN GUREV”.

– Em poucos minutos o rebocador da marinha russa “Prof. Nikolay Muru ”com uma classe Kilo da Marinha Russa está deixando o Mar Mediterrâneo em direção ao oeste.

– Em 6 de março, o Rebocador da Marinha Russa “Prof. Nikolay Muru ” entrou no Mar Mediterrâneo. Este rebocador não estava navegando sozinho, mas escoltando um submarino russo da classe Kilo que provavelmente estava rumando para o porto de Tartus, na Síria .

Nestes dias, também o grupo de combate do porta-aviões USS Dwight D . Eisenhower (CVN-69) adentrou no Mar Mediterrâneo, o que foi considerado uma interessante “coincidência” com a óbvia situação de monitoramento mútuo entre russos e OTAN…

Desde então, os movimentos do submarino russo foram seguidos de perto por várias aeronaves de ASW (Guerra antisubmarina) Boeing P-8A s Poseidon, ambos baseados na base aeronaval da OTAN de Rota, Espanha, e Sigonella, Sicília (Itália).

Um USNavy Lockheed EP-3E (160764) de Souda Bay AB acompanhou o trânsito do submarino no canal da Sicília. Ao mesmo tempo, um Beech 350 da Força Aérea Italiana equipado com sensores ISR (MM62300) deixou a Decimomannu AB para seguir o trânsito do submarino russo.

Finalmente, um ATR P-72A da Força Aérea italiana (MM62281) também está fazendo uma missão de vigilância sobre o progresso do comboio russo em direção ao Mediterrâneo oriental

Também foi efetuada uma missão de vigilância por um Embraer EMB 145 AEW da Força Aérea Helênica (Grécia) e um C-757 de Araxos Ab sobre a área onde está em andamento o Rebocador da Marinha Russa “Prof. Nikolay Muru ”

Fonte: https://www.itamilradar.com/wp-content/uploads/2021/03/image-20-1024×605.png

– No dia 19 de março aparentemente o MoD da Rússia divulgou uma informação “irônica”(divulgada por uma agência de notìcias) sobre o submarino, afirmando que o mesmo existe, que mantém contato com a sua base mas que sua posição é uma incógnita para todos…

O intenso tráfego de aeronaves ASW P-8A Poseidons

Enquanto um Boeing P-8A Poseidon está pousando na NAS Sigonella após uma missão de vigilância sobre o Mar Mediterrâneo, um segundo Poseidon já partiu de Sigonella para fazer uma missão semelhante, ou, substituir o anterior na mesma missão.

Desde a manhã do dia 18/03, observamos missões que se sucedem uma após a outra. na região…

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As atividades desse domingo, dia 21/03/2021

Desde o começo do dia as atividades de aeronaves militares e também a presença de “civis” na região se mostrou interessante, justamente em um espaço aéreo e marítimo que está sendo evitado por aeronaves e embarcações civis justamente na área aonde estão ocorrendo as “buscas” pelo submarino russo Rostov-on-don, que estava sob monitoramento até o dia 19/03 (sexta).

Abaixo, imagens de captura de tela das atividades dos Poseidons P-8A na manhã e tarde desse domingo.

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Como se pode observar nas imagens de captura de tela dos sites de monitoramento do Flight Radar 24 e Marine Traffic, existe uma imensa área onde não há tráfego aéreo e marìtimo civil ao sum de Chipre e Oeste de Israel.

As únicas aeronaves civis que “ousaram” e/ou obtiveram permissão para sobrevoar a àrea a grande altitude foi um Boeing 757 da Cia Aérea israelense El Al e um B747 cargueiro de uma empresa aérea não identificada por volta de 16/17H horàrio local.

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Sobre os submarinos da classe Kilo

Pelo fato de ser bastante problemático encontrá-los nas profundezas do mar, os militares da OTAN apelidaram extra-oficialmente os submarinos elétricos-diesel do Projeto 636.3 de “buracos negros” no oceano.

Esses submarinos não nucleares (pela codificação da OTAN – Kilo) são projetados para destruir navios e embarcações de superfície, submarinos inimigos, patrulha, detecção e reconhecimento (espionagem) de comunicações na zona marítima próxima.

Comparados com seus irmãos nucleares, eles são submarinos muito pequenos, pois o comprimento do Kilo 636 é de cerca de 74m, a largura é de 10m, o deslocamento máximo não ultrapassa 4 mil toneladas. O casco fornece ao submarino uma profundidade de operação de 240m e uma profundidade máxima de 300m.

O modelo “Varshavyanka” é um submarino de dois cascos com contornos modernos, grande flutuabilidade e inafundabilidade, com seis compartimentos separados por divisórias estanques, o que, segundo os desenvolvedores, permite que ela permaneça à tona em caso de alagamento de emergência de um dos compartimentos, mantendo a prontidão para o combate.

A tripulação, a usina e outros sistemas e mecanismos críticos estão alojados em um casco resistente, capaz de suportar a alta pressão da água. No exterior existe um casco “leve”, conferindo ao submarino uma forma aerodinâmica. O uso de elementos de absorção de ruído fornece alta furtividade ao barco.

O Kilo está equipado com modernos meios para reduzir o seu nível de ruído ao ruído natural de fundo do oceano, o que proporciona ao barco uma detecção proativa garantida e a capacidade de atacar navios inimigos com mísseis antinavio a uma distância superior à sua detecção, como bem como evasão oportuna de ataques.

Os submarinos estão equipados com dois geradores a diesel com capacidade de 1.500 kW, um motor elétrico principal a remo (cerca de 5.500 HP) e um motor elétrico para velocidade de cruzeiro. Além disso, o submarino possui dois motores diesel de reserva e dois grupos de baterias. Existe um parafuso com sete lâminas.

De acordo com sites especializados russos e europeus, o eixo principal do submarino do Projeto 636 gira sobre guias de madeira feitas de pau-ferro bakaut. Acontece que essa madeira é usada há muito tempo na construção naval. Sua peculiaridade é que emite um lubrificante natural que permite a utilização dos nós dessa madeira por 20 anos. Nem todo rolamento de metal pode se orgulhar de tal recurso.

A velocidade de superfície do “Varshavyanki” chega a 17 nós (mais de 30km / n), debaixo d’água chega a 20 nós. A autonomia de navegação é de 45 dias com uma tripulação de 52. Esses submarinos têm uma combinação ideal de camuflagem acústica e faixas de detecção de alvos, os mais recentes sistemas de navegação inercial, modernos sistemas automatizados de informação e controle e poderosos torpedos de alta velocidade e armas de mísseis garantem o mundo prioridade dos submarinos desta classe no domínio da construção naval de submarinos não nucleares.

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Imagem via Russian Military.

O armamento

As principais armas do Kilo Projeto 636.6 são os mísseis “Kalibr”. Existem seis tubos de torpedo de 533 mm no nariz; a munição inclui 18 torpedos ou 24 minas e o complexo de mísseis de cruzeiro “Kalibr-PL”. O alcance desses mísseis baseados no mar é de mais de 2.000 km.

Segundo o Ministério da Defesa, mísseis desse tipo têm baixa visibilidade de radar e devido ao envelope em altitudes ultrabaixas do terreno são difíceis de serem detectados por qualquer meio de defesa aérea. A precisão do alvo, apesar da faixa de aplicação, é de vários metros. O peso da ogiva “Kalibr” é de 500 kg.

O sistema inclui cinco mísseis diferentes desenvolvidos com base no míssil de cruzeiro anti-navio 3M 54E “Grenade”. A versão de exportação do complexo (Clube) pode usar munições de vários tipos com alcance de até 300 km.

A proporção entre o alcance de detecção do alvo e a discrição acústica dos 636s é ótima: “Vashavyanka” pode “ver” o inimigo à distância máxima, chegar perto dele e não ser detectado, observá-lo e, se necessário, usar suas armas formidáveis.

O primeiro uso de combate desses submarinos ocorreu em 8 de dezembro de 2015 durante a operação militar russa na Síria. Localizado na parte oriental do Mar Mediterrâneo, o submarino Rostov-on-Don lançou mísseis do complexo Kalibr-PL contra alvos terroristas na província síria de Raqqa.

Esta foi a primeira vez na história da frota de submarinos da Marinha Russa atacou com mísseis um inimigo real. Durante 2017, outros barcos deste projeto, “Krasnodar” e “Veliky Novgorod”, também mostraram sua alta eficiência, infligindo ataques semelhantes a terroristas sírios.

A ansiedade do Ocidente

Os Estados Unidos e a Europa reconheceram repetidamente que a Rússia possui uma poderosa frota de submarinos e investem em seu aprimoramento. Os novos submarinos russos, segundo almirantes e generais ocidentais, são extremamente eficazes e representam um grande perigo.

Em uma entrevista, o comandante da Marinha dos Estados Unidos na Europa e na África, Almirante James Fogle, que simultaneamente chefia o Comando Conjunto das forças da OTAN em Nápoles (Itália), falou sobre nossos “Varshavyanka”: “Eles estão armados com mísseis de cruzeiro Kalibr eles são sistemas de combate muito eficazes. E dos locais onde os russos os usam, podem atingir qualquer capital europeia ”. “Eles vão fazer isso? Acho que não, mas mesmo assim precisamos estar cientes de onde eles estão a qualquer momento ”, acrescentou.

O almirante afirmou que a Rússia ampliou a presença de seus submarinos no Oceano Atlântico Norte, bem como no Oceano Ártico. “Eles nos dizem que eles estão lá. São muitos mais, e atuam em locais onde antes não operavam ”, disse.

“É uma espécie de“ Kalashnikov ”: não parece nada de especial, mas tudo é simples, cómodo, claro – pegue e use. E aqui temos quase o mesmo princípio. A competitividade deste projeto é suportada pela sua constante modernização. O catalisador do sucesso na última década, é claro, foi a integração do sistema de mísseis Club. Assim que foi implementado pela primeira vez para a Índia, despertou um grande interesse no navio ”, – já em 2014 em entrevista à revista“ Exportação de Armas ”, descreveu o Diretor Geral Adjunto de“ Ruby ”para a atividade econômica estrangeira Andrei Baranov as perspectivas de exportação deste barco.

Os especialistas observam que os navios desta classe possuem uma reserva de modernização significativa, o que permite a otimização do projeto às necessidades do cliente. De acordo com os desenvolvedores, o “Varshavyanka” difere dos submarinos estrangeiros de sua classe por seu armamento universal excepcionalmente poderoso, capaz de lutar contra navios de superfície e submarinos. Também pode atingir alvos terrestres – embora tal possibilidade não exista em nenhum dos submarinos europeus que são oferecidos para exportação.

Com a construção do Pacífico, a série de navios desta classe para a Marinha Russa será muito maior, e esses “buracos negros” vão operar naqueles lugares dos oceanos do mundo onde antes não operavam. Ao mesmo tempo, ainda é secreto, rápido e silencioso.

O nome “Varshavyanka” veio da década de 1970, quando o Projeto 877EKM (versões de exportação dos submarinos do Projeto 877 “Halibut”) deveriam ser entregues em grandes séries para exportação para os países do Pacto de Varsóvia. De acordo com o Projeto 877EKM, nos anos 1983-2000, 18 submarinos foram construídos, que ainda servem com sucesso na Índia, China, Vietnã e Argélia.

O modernizado Projeto 636.3, atualmente em construção nos estaleiros, pertence à terceira geração de submarinos a diesel. Ele foi desenvolvido na equipe “Ruby” do Bureau Central de Design de Engenharia Marinha, sob a liderança do designer-chefe Igor Molchanov.

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Fotos de submarinos classe Kilo no porto de Tartus na Syria. Imagem via ItamilRadar.

Saiba mais sobre o acontecimento:

OTAN em alerta após perder rastreio de submarino russo no Mar Mediterrâneo Oriental

  • Com informações Canal Área Miltar, TASS, STF Analysis & Intelligence, Itamilradar, South East Med Energy & Defense, Marine Nationale, Flight Radar 24 e Marine Traffic, via redação Orbis Defense Europe.



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